Sentir ansiedade é parte da condição humana. Antes de uma reunião importante, de uma decisão difícil ou de uma mudança significativa, o corpo reage: o coração acelera, os pensamentos se intensificam, a respiração muda. Essa resposta é adaptativa. Ela nos prepara para agir.
O problema começa quando a ansiedade deixa de ser pontual e passa a ser constante, intensa e desproporcional à realidade. Quando o “modo alerta” não desliga. Quando o medo não corresponde ao risco. Quando o sofrimento começa a interferir no sono, no trabalho, nas relações e na qualidade de vida.
É nesse momento que podemos estar diante de um transtorno de ansiedade.
A dimensão do problema no mundo e no Brasil
Os transtornos de ansiedade estão entre as condições de saúde mental mais comuns da atualidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 300 milhões de pessoas convivem com algum transtorno de ansiedade no mundo.
Dados do projeto Global Burden of Disease mostraram que, apenas em 2020, houve um aumento aproximado de 25% nos casos de ansiedade e depressão, em grande parte associado aos impactos da pandemia — medo, insegurança econômica, isolamento e luto coletivo.
No Brasil, os números são ainda mais expressivos. Estimativas amplamente divulgadas indicam que cerca de 9% da população brasileira apresenta transtornos de ansiedade, uma das maiores prevalências do mundo. Em pesquisas baseadas em autorrelato de diagnóstico ou sintomas, os índices aparecem ainda mais elevados, especialmente entre mulheres e jovens adultos.
Esses dados mostram que não estamos falando de algo raro ou pontual, mas de uma condição com impacto real e coletivo, inclusive no ambiente corporativo.
Por que a ansiedade se torna um transtorno?
Não existe uma única causa. A ansiedade patológica surge da combinação de fatores biológicos, psicológicos e ambientais.
Algumas pessoas têm maior vulnerabilidade genética. Outras passaram por experiências precoces marcadas por insegurança, críticas constantes ou eventos traumáticos. O contexto contemporâneo também contribui: pressão por desempenho, instabilidade financeira, excesso de informação, comparação social permanente.
Do ponto de vista cerebral, áreas relacionadas ao processamento de ameaça tornam-se mais sensíveis. É como se o “alarme interno” estivesse regulado para disparar com facilidade. Ao mesmo tempo, padrões de pensamento tendem a ficar mais catastróficos: a mente antecipa problemas, imagina cenários negativos e subestima a própria capacidade de enfrentamento.
O resultado é um ciclo que se retroalimenta: preocupação excessiva, sintomas físicos, evitação e mais preocupação.
E é importante reforçar: isso não é falta de força de vontade. É um quadro clínico.
Tratamento: por que a combinação faz diferença?
Ainda existe muito preconceito quando se fala em medicação psiquiátrica. Porém, em quadros moderados ou graves, as evidências científicas mostram que a combinação entre psicoterapia e psicofármaco costuma trazer melhores resultados do que cada abordagem isoladamente.
Os antidepressivos das classes Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS) e Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (IRSN) atuam regulando os sistemas neuroquímicos envolvidos na ansiedade. Eles reduzem sintomas físicos intensos, diminuem a hipervigilância e ajudam o paciente a sair do estado permanente de alerta.
Mas a medicação, sozinha, não modifica padrões de pensamento, não ressignifica experiências passadas e não ensina novas estratégias de enfrentamento.
É nesse ponto que a psicoterapia se torna fundamental. Ela ajuda a identificar gatilhos, questionar interpretações distorcidas, desenvolver recursos emocionais e reduzir comportamentos de evitação que mantêm o ciclo ansioso.
Enquanto o medicamento regula o sistema, a psicoterapia promove transformação.
Uma abordagem integrada e individualizada
Cada pessoa é única. Nem todos os casos exigem medicação, e nem toda ansiedade deve ser medicalizada. Por outro lado, negar a possibilidade de tratamento farmacológico quando ele é indicado pode prolongar o sofrimento desnecessariamente.
A decisão deve ser individualizada, baseada na gravidade dos sintomas, na história clínica, nas comorbidades e nas preferências do paciente. Quando psicólogo e psiquiatra trabalham de forma articulada, o cuidado se torna mais completo e eficaz.
Informação reduz estigma
A ansiedade é uma das marcas do nosso tempo, mas também é uma condição tratável. Quanto mais informação qualificada circula, menor o estigma e maior a chance de as pessoas buscarem ajuda precocemente.
Sair do estado constante de alerta não é sinal de fraqueza. É sinal de cuidado.
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Por Prof. Me. Élvis Mognhon
Psicólogo | Administrador | Mestre em Desenvolvimento
Diretor – Virtuos Desenvolvimento Humano
virtuos@virtuosdesenvolvimento.com.br